A PREGUIÇA - MAL DE ORIGEM

 

Eneida Maria de Souza – UFMG

 

São desgraças do Brasil

Um patriotismo fofo,

Leis com parolas, preguiça

Ferrugem, formiga e mofo.

 

Paulo Prado

 

Dois escritores representativos do Modernismo Brasileiro – Mário e Oswald de Andrade – na releitura que fizeram dos mitos legados pela colonização, elegeram a preguiça e o ócio como resposta aos males trazidos pelo processo modernizador do século XX. O autor de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, ao se apropriar da personagem indígena que emblematiza a preguiça, constrói uma das mais polêmicas imagens identitárias do país, visto ser a preguiça a primeira inscrição sobre o corpo do habitante nativo do Novo Mundo. Oswald de Andrade, personagem de si próprio, pela sua biografia corporifica a imagem do bon vivant, pela obra instaura a poética pau-brasil e a antropofágica, utilizando-se da mesma ideologia imposta pelo discurso colonizador, no diagnóstico dos bens e dos males do país. A retomada, no fim da vida, da filosofia antropofágica, na Crise da filosofia messiânica, opõe o patriarcado ao matriarcado, defendendo este último como um dos componentes da cultura antropofágica, lúdica e festiva, o limiar da Idade do Ócio.

Neste final de século, João Gilberto Noll publica a novela Canoas e marolas, como parte da série sobre os pecados capitais, e constrói a sua versão da preguiça. Narrado na primeira pessoa, o texto coloca em primeiro plano o sentimento de tédio e de desamparo de uma personagem que, em tom agônico e em estado de deslocamento constante, inverte o sentido da viagem macunaímica e desconstrói a alegria da viagem - descoberta modernista. Refletir sobre as diferentes interpretações relativas ao tema da preguiça e os desdobramentos observados no pensamento crítico contemporâneo, é o que se pretende desenvolver neste texto, que focalizará, de preferência, a obra de Mário de Andrade. A sua relação com as teorias de Oswald de Andrade ficam para outra ocasião.

O tema, além de se constituir enquanto conceito operatório utilizado na elucidação de um saber que se contrapõe ao saber racionalista e iluminista, se reduplica numa série de associações que assim se apresentam: a) do ponto de vista temporal, instaura-se um tratamento diferenciado quanto à sua manipulação pelo homem moderno, seja na concepção de uma longa e lenta duração, seja na aceitação do movimento que exige pressa e rapidez conforme as exigências do mundo tecnizado e das mudanças sociais; b) dentro da ótica espacial, prevalecem os estereótipos ligados à distinção entre os lugares propícios ao culto da preguiça e ao direito ao ócio, representados por regiões de clima quente, ilhas de riqueza e paraísos terrestres, e os lugares nos quais se instala a ideologia do trabalho, representados pelos grandes centros e por lugares dotados de clima temperado; c) do ponto de vista do comportamento social, acentua-se a diferença entre a sexualidade e o traquejo de um corpo que se move sob o signo da indolência e da preguiça e a de um outro, marcado ou pela rigidez das pressões do trabalho ou pela inércia e a doença.

A vocação etnográfica e museológica de Mário de Andrade o levou a se interessar não só pela composição de Macunaíma, mas ainda pela teorização sobre as diferenças entre civilização e barbárie, ou entre o pensamento primitivo e o civilizado. Valendo-se ainda de informações filosóficas presentes na obra de Keyserling, o escritor se apoia nessas teorias para a valorização da preguiça como condição propícia à criação e à arte, reunindo, mais uma vez, o primitivo ao poeta, da mesma forma que irá se comportar a antropologia anterior a Lévi-Strauss. Contemporâneo da política modernizadora de saneamento do país, cuja maior bandeira era erradicar as doenças de seus habitantes, Mário se posiciona de forma contrária, ao eleger a preguiça como o elemento diferenciador do brasileiro, exaltando-a na rapsódia bem-humorada de Macunaíma. Insurgindo-se também contra a ideologia expressa nos relatos de viagem dos cronistas europeus, em que a raiz dos vícios da terra se resumia na preguiça, além de seus desdobramentos, como o isolamento, a apatia e as doenças, consegue reverter esse quadro, ao realizar uma das mais corajosas intervenções sobre a contraditória definição de identidade nacional.

 Os vários escritos sobre o tema, “A divina preguiça”, de 1918, seguido de “Maleita“, de 1931, passando pelo diário de bordo de O turista aprendiz, de 1927, complementam o projeto estético e político de Mário de Andrade, além de ser um componente importante para o seu projeto de vida. Ainda que se munisse de ferramentas interpretativas vistas hoje como ultrapassadas, como a associação entre terras quentes e a prática natural da preguiça; do conceito de primitivo como possuído de uma lógica mais autêntica, uma vez que se mostra desprovida da artificialidade e do progresso tecnológico do civilizado; ou da criação de um lugar utópico e paradisíaco onde se gozaria do ócio e liberaria o homem das obrigações cotidianas, consegue-se retirar daí algumas lições capazes de iluminar um pouco as questões identitárias.

No artigo “A divina preguiça”, Mário discorda da associação, por parte da psiquiatria, entre preguiça e doença, anunciando o que seria a sua poética futura e as múltiplas releituras que serão feitas ao longo de sua obra. Entende ser a preguiça a mola da criação artística, herança que os gregos souberam muito bem deixar para o mundo ocidental – sem falar no ócio romano - principalmente ao valorizarem a “contemplação ociosa da natureza”, da mesma forma que os nossos indígenas, libertadas “as almas dos invólucros da carne, iriam também repousar, lá do outro lado dos Andes, num ócio gigantesco”.[1] Curiosamente, esse estado de contemplação, sensualidade e liberdade vivenciada pelos homens remete à criação da utopia do paraíso, da Terra sem Males, onde tudo é permitido. Uma presença forte no mundo medieval europeu, a Cocanha, o país imaginário, é estudada por Hilário Franco Júnior, como a “ terra dos preguiçosos e dos loucos”, “terra da preguiça e da gula”, onde tem tudo e não falta nada ” [2]. Embora se apresente segundo parâmetros muito mais carnavalizados e marcados pela ruptura e a inversão de ideais cristãos e burgueses, a Cocanha mantém pontos de semelhança com o imaginário poético da Pasárgada de Bandeira, assim como a sensação de entrega e prazer descrita por Mário de Andrade no artigo sobre a preguiça:

 

E eu tive como que uma visão nova do mundo: via a Terra, modorrada de calor, redondinha, vestida de um imenso gramado esmeraldino sobre o qual a humanidade toda se deitara, chapéu nos olhos, mãos nas cavas dos coletes, pausas pantagruélicas culminando no espaço, a dormir, a dormir serenamente, num gigantesco, universal convescote. [3]

 

O pansensualismo, a universalidade imaginada através da união da humanidade recobrem a utopia do sono como traço da preguiça e do entregar-se totalmente aos outros, comunhão religiosa que irá ser uma das grandes molas do pensamento de Mário, sempre preocupado com o destino das civilizações. Mas essa visão ainda idealizada da preguiça terá, mais tarde, como lugar de opção a Amazônia, espaço de origem de Macunaíma e terra propícia à experiência da maleita, febre provocadora de visões e de estados de espírito e de corpo comparáveis aos prazeres do país da Cocanha. A viagem ao norte do país, em 1927, motiva ainda mais o espírito de descoberta do escritor, que, vivendo em São Paulo se extasia, como um turista aprendiz, com a outra face do Brasil, ainda desconhecida e marcada por costumes que poderiam ser vistos como pré-modernos e pré-industriais. A alegria de um saber novo e deslocado da realidade das grandes cidades revela-se no sentimento de estar realizando a segunda viagem de descoberta do Brasil, sendo que a primeira teve lugar em 1924, quando ele e o grupo de paulistas visitam as cidades históricas de Minas.

Em “ Maleita I e II”, artigos datados de 1931, o escritor recupera o diário escrito durante a viagem à Amazônia e condensa a sensação de preguiça à de doença, combinação que mais tarde irá ser retomada de forma contundente, aliando o prazer à dor, o delírio à realização imaginária de desejos. Felicidade e sofrimento são as faces de uma mesma moeda poética. A evasão do mundo civilizado, a resposta aos desmandos do progresso modernizador, a lentidão das “atividades físicas e psicológicas”, a “calma incomparável” e “uma espécie de preguiça maravilhosa de ser” revelam o lado criador, poético e artístico de Mário, o lado “macunaíma” e narcísico, que o tempo todo se debate com o pólo de Prometeu, responsável pelos compromissos de trabalho e as angústias de ordem pública e privada. A paciência, o silêncio e a sabedoria da natureza, com seus coqueiros e jacarés, permitem a relação mais próxima com o ambiente, capazes de propiciar a vivência de momentos em perfeita fruição de um tempo lento e suspenso.

 

Quero, desejo ardentemente é ser maleitoso não aqui, com trabalhos a fazer, com a última revista, o próximo jogo de futebol, o próximo livro a terminar. Desejo a doença com todo o seu ambiente e expressão, num igarapé do Madeira com seus jacarés, ou na praia de Tambaú com seus coqueiros, no silêncio, rodeado de deuses, de perguntas, de paciências. Com trabalhos episódicos e desdatados, ou duma vez sem trabalho nenhum.[4]

 

 

O debate travado entre a experiência prazerosa do contato com a natureza, no seu tempo de duração poético, paciente e lento e a demanda da sociedade do trabalho sugere, contudo, que as duas atividades estivessem separadas, ou seja, que a escrita se afastaria do labor, por se caracterizar pela expressão de um ato de prazer. As circunstâncias impedem, muitas vezes, que Mário de Andrade estabeleça as relações mediatizadas entre duas realidades complementares, criando-se a oposição entre elas. É preciso lembrar que a criação artística será definida pelo escritor como um orgasmo e não como um parto, como assim entediam Rilke e Nietzsche, por simbolizar o estado de gozo e prazer que arrebata o criador, ao qual, mais tarde, se incumbe de retomar o trabalho e burilar o que havia chegado de forma intempestiva. [5] O culto da preguiça se estende, portanto, ao gesto de meditação do intelecto, uma maneira de filosofar e de exercitar a prática de um saber paciente, calmo e desprovido do caráter utilitário de outro tipo de trabalho. O escritor resume este desejo de criação de uma civilização da paciência e da preguiça em carta ao tio Pio, de 1933:

 

Tenho o dom espantoso e bem raro de me considerar feliz.(...) A paz dos justos, a serenidade dos experientes, a generosidade dos superiores, e aquela concepção de vida que não de alegrias se alimenta, mas de amorosa contemplação e paciência, que por isso mesmo não é nem alegre nem triste, mas é maravilhosamente sábia. [6]

 

A escolha de lugares nos quais se sente mais realizado não corresponde, contudo, a um simples conflito de ordem geográfica, nem a oscilações temperamentais verificadas conforme a situação. As justificativas de Mário para as diferenças de comportamento do brasileiro, vivendo entre climas temperados e climas quentes, pertencem a uma preocupação muito maior, que é a de procurar entender a sua posição como intelectual e homem público. Em momentos de indecisão pessoal e em virtude de problemas de ordem política, o escritor se coloca, moralisticamente, como defensor do trabalho sério, da disciplina e do método desenvolvidos por pessoas pertencentes a regiões de clima temperado, em contraposição àquelas que são originárias de lugares de clima quente. Culpa, assim, a cidade do Rio de Janeiro pelos “defeitos dos homens”, por ser o clima tropical um convite à preguiça e a ações sensualmente irresponsáveis. Inaceitável ainda como “cabeça de uma civilização”, o Rio deveria, nas palavras de Mário, deixar de ser a capital do país.[7] A preguiça adquire agora conotação negativa, servindo como argumento para que o escritor explique, de forma natural e fatalista, questões de diferenças de ordem política por meio de argumentos regionalistas.

É no mesmo ambiente de euforia e descontração que a primeira versão de Macunaíma é escrita, na chácara do tio Pio Lourenço, em Araraquara, no período de seis dias de descanso, após um tempo longo de consultas a todo o material disponível sobre o tema. Os dois prefácios, não publicados na época do lançamento do livro, narram o processo criativo de Mário de Andrade, em que o armazenamento e o acúmulo de dados careciam do afastamento dos livros e dos lugares em que foram geradas as pesquisas. O ambiente escolhido para escrever o livro que pretendesse explorar a natureza preguiçosa da personagem e a sua falta de caráter, foi um lugar que metaforizava o próprio processo dessa escrita:

 

Este livro, de pura brincadeira, escrito na primeira redação em seis dias ininterruptos de rede cigarros e cigarras na chacra de Pio Lourenço perto do ninho da luz que é Araraquara, afinal resolvi dar sem mais preocupação.(…) Ora esse livro que não passou dum jeito pensativo e gozado de descansar umas férias, relumeante de pesquisas e intenções, muitas das quais só se tornavam conscientes ao nascer da escrita, me parece que vale um bocado como sintoma de cultura nacional. [8]

 

Trata-se da revelação do processo ambivalente da composição artística, considerando-se a dialética entre a lentidão da pesquisa e a pressa com que reconstrói, pela escrita, o saber documental. O espaço e o tempo da elaboração literária, “entre rede cigarros e cigarras", estabelece a ligação com a preguiça, pela utilização da rede como parte integrante do hábito brasileiro, da presença fabular da cigarra, associada ao canto e ao lazer, e da companhia relaxante/ ou nervosa do cigarro, um convite ao devaneio e ao pensar. Escrever fora do habitat natural instaura um espaço e um tempo diferenciados para a criação literária, um estado de suspensão dos afazeres cotidianos. A concepção de literatura passa a ser para o autor o resultado de um gesto que envolve alegria e gozo, num ritmo hedonístico de trabalho que se filia ao sentimento de dor e de sofrimento. Ciente da grandeza de seu projeto, o escritor não se furta a declarar que Macunaíma representa um sintoma de cultura nacional, ainda que a denúncia tenha sido fruto de “um jeito pensativo e gozado de descansar umas férias”.

 Macunaíma, o herói de nossa gente, possui uma marca lingüística, o conhecido dístico "Ai! que preguiça!..." que o distingue como personagem e o posiciona como o emblema literário da preguiça brasileira. A outra expressão, emitida reiteradamente por ele, "Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são", completa o seu perfil discursivo, ao se investir de intenção retórica e irônica e fornecer uma resposta às teses higienistas defendidas na época pelos adeptos da política de saneamento do país. Realiza-se, no nível discursivo e de maneira metafórica, a condensação entre preguiça e doença, denunciada pela fala inconseqüente de Macunaíma, pois a reiteração obsessiva de frases feitas atinge efeito derrirósio e denuncia o bla-blá- blá criado em torno da questão. Aos discursos sanitaristas endossados por Monteiro Lobato em vários de seus artigos, assim como a célebre frase de Miguel Pereira, “O Brasil é um vasto hospital”, são vivamente criticados por Mário de Andrade, que reinventa o Macunaíma de forma distinta do Jeca Tatu, assumindo a preguiça como valor e desprezando qualquer pretensão moralista ou regenerativa de sua personagem.[9] Na composição desse raciocínio, o debate travado entre Macunaíma, herói solar e mestre da preguiça, com a cultura do trabalho, culmina com o sentimento de fracasso experimentado pela personagem, que, incapaz de realizações exigidas pela civilização cristã, encarna, de maneira indireta, esta culpa, assim como uma saída utópica, transformando-se em constelação. No entanto, a ambigüidade criada por este impasse final constitui uma abertura a mais na interpretação desse rico personagem da literatura brasileira de todos os tempos.

O possível diálogo entre Canoas e marolas, de João Gilberto Noll, com Macunaíma, poderá ser rastreado a partir de uma série de associações que se inicia pelo tema da preguiça, escolhido para a escrita da novela. As semelhanças entre as duas leituras são mínimas, mas ao mesmo tempo mantêm algum traço de filiação, principalmente se se levar em conta que a personagem principal de Canoas e marolas nasce da imagem final de Macunaíma. De volta ao Uraricoera, após as aventuras heróicas vividas na cidade de São Paulo, doente, acometido de malária e em estado febril, a personagem assume o papel de um ser agônico. Desiste de permanecer na terra, deixando uma inscrição na pedra que já fora jaboti e se transforma na Ursa Maior, banzando solitário no céu. A personagem de Noll, desprovida de qualquer motivação existencial, chega a uma ilha em busca de uma provável filha que, por sua vez, está esperando o nascimento de um filho. Sem memória, ao perder a capacidade de experiência, e sem qualquer ilusão de futuro, para essa personagem o presente reveste-se de ruínas e aponta a impossibilidade de movimento contínuo em direção a algum objetivo. Movida pelo tédio, a inércia e a indiferença, ela representa o avesso da preguiça criativa e alegre de Macunaíma, sem se encaixar nas caracterizações impostas pelo senso comum, como as do malandro, do forasteiro ou do vagabundo: “esse forasteiro aqui que tinha desembestado pela trilha avulsa, que seria certamente o vagabundo que perambula entre as famílias e as mais diversas faixas de labuta, o malandro talvez, o ócio feito sacerdócio, um homem sempre desatento ou com a atenção sempre posta em outra coisa (...) “[10]

A novela se apropria, ironicamente, de cenas e fragmentos relativos à cultura brasileira, quer na escolha de uma ilha como o lugar onde se desenrola a trama, quer na ambientação tropical, num clima quente, em que o calor motiva a sensação de preguiça que mais se aproxima do tédio e da inércia, quer na criação de personagens que têm ora cara de índio, ora se apresentam como índios que, no final do texto, se unem à personagem na aventura de uma viagem sem ponto de chegada. Os resquícios da decantada civilização primitiva são retomados por Noll através da encenação inesperada de uma legião de índios que parte em direção à personagem, transformada, pelo olhar dos outros, em divindade. De uma figura desprovida de qualquer sentido vital, ela se torna objeto de culto, no mesmo instante que, paralisada, é reduzida à natureza vegetal, à condição de pedra.

A narrativa caminha no ritmo lento e repetitivo, movido pelo sentimento de letargia da personagem, disposta a relatar, obsessivamente e sem criação de efeito de suspense, sempre a mesma história de um homem comum. A ausência de desejo impede o deslocamento físico e estanca a imagem possível do sonho, uma vez que a sensação de letargia deveria produzir ruídos e não imagens, simples comprovação de estar-no-mundo. A eloquência retórica de Macunaíma se desfaz nesta personagem terminal, em torno da qual inexiste diálogo com o outro, visto ser um luxo a comunicação na ilha. A comunicabilidade se realiza apenas no nível da relação entre o homem e a paisagem, entendimento alcançado pelo alto grau de silêncio, solidão e calma que ambos transmitem.

Desta lição de Canoas e marolas consegue se extrair uma das vertentes da narrativa pós-moderna, pautada pelo mal-estar e pela comprovação de uma poética que, não tendo mais nada a dizer em termos de experiência e de saber acumulado no passado, utiliza-se de uma retórica do fragmento e de uma solução formal minimalista. A obsessão por situações de perda e pelo espectro da morte transformam a escrita em encenação de enredos já conhecidos e de enunciações estereotipadas, por se tratar de uma estrutura repetitiva e circular, portanto, exaurida. Personagem e narrativa cumprem o ritual de uma estética e de uma ética da negação, da letargia e do cansaço como uma das formas de se inscrever na escrita faltosa e sem trégua: “O que eu queria mesmo era saber contar uma história, ou melhor, ter uma história limpa para contar. Fico aqui resmungando e resmungando e ninguém me ouve e ninguém acorre. Então me sento e depois me deito na areia à beira do rio. Faz calor. Transpiro, mas não muito, apenas para dizer que me cansei que me canso e que me cansarei. Estou deitado na areia como um sinal para a noite, para todas as noites”. [11]

Em 1973, a formulação do conceito de escrita como prazer será sistematizada por Roland Barthes, no livro O prazer do texto, o que provocou muita polêmica por parte da crítica literária da época. Ao considerar a literatura como mediadora da dimensão hedonística entre o escritor e o leitor, em que o prazer atua como força criadora e catártica, Barthes reúne os princípios nietzschianos à psicanálise lacaniana, recuperando a relação entre o trabalho literário, o ócio e a alegria. A posição pós-estruturalista do teórico recoloca o sujeito do desejo no discurso crítico e reinsere a figura do autor por meio do apelo hedonista em direção ao texto e ao leitor. Barthes escapa da objetividade exigida pelo método estruturalista, desconstruindo-o e assumindo, sem riscos, a subjetividade analítica. Mário de Andrade já havia se apropriado da preguiça como valor e a transformado em metáfora da criação e em ganho cultural, ao se referir aos países periféricos, marcados por males de origem e pela perda natural dos bens. Oswald de Andrade, nos manifestos “Pau-Brasil e “Antropófago”, este mais tarde retomado no texto Crise da filosofia messiânica, ao considerar a preguiça como a “mãe da fantasia, da invenção e do amor”, contribui para o diálogo intercultural, sem a presença de traumas e de ressentimentos, e abre mais uma porta para a reflexão sobre a vertente lúdica e carnavalizada das manifestações culturais.

Silviano Santiago, em artigo de 1988, “Poder e alegria – a literatura brasileira pós-64 – reflexões”,[12] ao efetuar o balanço desta época, nega a sua posição de escritor diante da produção artística pautada pela negatividade e se coloca como defensor da escrita que, à maneira de Mário de Andrade e Caetano Veloso, se inscreve de forma afirmativa – e alegre – sem que exista aí qualquer intenção moralizante ou ingênua. O prazer e o sofrimento tornam-se faces da mesma moeda, considerando-se que a literatura é portadora de um discurso que possui parâmetros de construção bem claros, assim como projetos estéticos bastante definidos. O prazer do texto resulta da cristalização da dor, transformada em positividade e trazida à superfície da palavra pela força inventiva do artifício e da técnica.

Da rapsódia modernista à novela pós-moderna de João Gilberto Noll, muito se poderia ainda falar. As minhas considerações finais alertam apenas para questões relativas à diferença entre duas concepções de literatura, ao se considerar a substituição do exercício salutar da preguiça - uma entre as várias maneiras de interpretar a questão identitária no Brasil, procedendo à inversão do mal e alçando-o à categoria de conceito positivo – pela concepção do ócio como tédio e doença, posição que remete ao caráter pós-utópico e apocalíptico da literatura. Trata-se de duas linhagens literárias completamente distintas. O conceito referente ao “prazer do texto”, ao ser dimensionado além do nível metalingüístico e atingir o âmbito das manifestações culturais, funciona como uma forma de ativar o diálogo transcultural, através de um traço diferencial e significativo. Os males dos trópicos, estigma que se transforma em dom, se imporiam como força capaz de reverter erros de origem e de se abrir para interpretações mais salutares da cultura brasileira.



[1] Mário de ANDRADE. A divina preguiça. A Gazeta. São Paulo, 3 set., 1918. In: BATISTA, Marta Rossetti; LOPEZ, Telê Porto Ancona; LIMA, Yone Soares de. Brasil: 1º tempo modernista – 1917/29. São Paulo: IEB, 1972. P. 183.

[2] Hilário FRANCO JÚNIOR. Cocanha: várias faces de uma utopia. São Paulo: Ateliê Editorial, 1998. p. 15.“Venham, despreocupados e companheiros, / vocês que odeiam trabalhar, / amigos das gorduras e das boas comidas, /inimigos da carestia e do penar, /homens de grande coração, não poltrões, /como os avaros os querem chamar, / venham todos, que vamos para a Cocanha,/ onde aquele que mais dorme mais ganha. “ Uma viagem italiana à Cocanha. 1588. In: JÚNIOR, Hilário Franco. Cocanha – várias faces de uma utopia. Op. Cit., p. 133.

[3] Mário de ANDRADE. A divina preguiça. Art. Cit., p. 182.

[4] Id. Maleita - I. In: LOPEZ, Telê Porto Ancona. ( Estabelecimento de texto, introdução e notas. ) Táxi e crônicas no Diário Nacional. São Paulo: Duas Cidades; Secretaria de Cultura, Ciência e Tecnologia. 1976. p. 444.

[5] Em várias de suas cartas endereçadas aos amigos, Mário de Andrade expõe a sua teoria sobre a criação poética, associando-a ao orgasmo e ao prazer. Para Fernando Sabino, assim se expressa: “ (...) Não: a arte não é um sofrimento, exatamente, nem é só o sofrimento que a pode legitimamente proporcionar. O momento da criação é um prazer sublime, e estou completamente em desacordo com os que o consideram um parto. Nem posso compreender mesmo, essa assimilação da criação artística com o parto. Deriva certamente da semelhança objetiva, entre o filho e a obra - de -arte. O momento de criação é gostosíssimo, verdadeiramente aquela sublimidade de integração e de dadivosidade do ser, em que a gente fica na ejaculação sexua”l. Mário de ANDRADE. Cartas a um jovem escritor: de Mário de Andrade a Fernando Sabino. Rio de Janeiro: Record, 1981, carta de 16-2-42.

[6] Id. Carta ao tio Pio. 18/XII/1933. Citada em KNOLL, Victor. Paciente arlequinada. Uma leitura da obra poética de Mário de Andrade. São Paulo: Hucitec, Secretaria de Estado de Cultura, 1983. P. 136. A análise do autor sobre o tema da preguiça e da paciência na obra poética de Mário de Andrade mereceu atenção especial para a realização desta minha leitura.

[7] Cf. Id. Querida Henriqueta; cartas de Mário de Andrade a Henriqueta Lisboa. OLIVEIRA, Abigail de. (Org.). Rio de Janeiro: José Olympio, 1990. Cf. ainda SOUZA, Eneida Maria de. Autoficções de Mário. In: A pedra mágica do discurso. 2ª edição revista e ampliada. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999. P. 191-215.

[8] Id. (1973). Prefácios para Macunaíma (1928 – Fotocópia do manuscrito legado pelo Autor a Luís Saia – IEB – USP). In: Batista, Marta et al. Brasil: 1º tempo modernista – 1917 – 29. Documentação. São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros, 1973. P. 289.

[9] Cf., para a análise de Monteiro Lobato e a sua atuação na política de saneamento do Brasil, o livro de Nísia Trindade Lima, Um sertão chamado Brasil. Rio de Janeiro: Revan, IUPERJ, 1999.

[10] João Gilberto NOLL. Canoas e marolas. Preguiça. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999. P. 62.

 

[11] Idem, p. 82.

[12] Silviano SANTIAGO. Nas malhas da letra. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. Poder e alegria – a literatura brasileira pós-64 – reflexões.